A história da Nina

Tem 37 anos, é formada em Design Gráfico pela Belas Artes, hoje é designer, facilitadora e artista e mora em São Paulo.

Nina gosta de desenhar e fazer trabalhos manuais desde muito pequena. Fez aula de pintura dos 14 aos 21 anos, e quando começou a pensar em carreira, a primeira vontade que veio foi fazer artes plásticas. Mas, como nossa sociedade tem dificuldades em reconhecer a arte como uma possibilidade de profissão, começaram a vir as dúvidas: Será que consigo me sustentar? Sou boa o suficiente? Será que posso produzir algo de valor? Quando veio o vestibular, a solução foi tentar um meio-termo: design gráfico ainda tem algo de arte e ela teria mais possibilidades no mercado de trabalho. Na faculdade, Nina sempre curtiu mais as disciplinas de arte e ilustração, só que novamente sua escolha foi interrompida e tendenciada por outro fator externo: o mercado. Antes de terminar a graduação, trabalhos na área de design gráfico começaram a aparecer, e foi inevitável começar a trabalhar nessa área.

Com o dia-a-dia do trabalho, o espaço para desenhar foi ficando cada vez menor, até desaparecer totalmente. Algo muito forte fez com que ela se fechasse por dentro, e ela passou por um bloqueio criativo que durou 10 anos. Durante todo esse tempo sem conseguir encarar a folha em branco, ela sentiu como se toda sua sensibilidade tivesse se bloqueado junto com sua criatividade, e viveu um período de apatia no início, e depois de muito sofrimento. Sem perceber, ela foi tomando decisões e fazendo escolhas que a levavam para um lugar cada vez mais sombrio, até ela chegar num ponto onde se viu sozinha, presa e irreconhecível. Mas Nina diz que “a minha noite escura da alma foi também o meu despertar”. A consciência do sofrimento e do distanciamento de si própria fez com que ela se movimentasse num caminho de autoconhecimento e redescobrimento. Sempre pensando em superar aquele bloqueio, que fez ela perder aquilo que mais amava fazer, ela fez escolhas conscientes, pessoais e de carreira, que a levassem para um ambiente criativo e artístico.

O primeiro trabalho de arte que ela fez foi quase sem querer: num processo terapêutico de exorcizar seus fantasmas, Nina começou a bordar num vestido vários objetos carregados de significado: cada um deles representava um sentimento forte, que ela não olhava há muito tempo. Passou mais de um ano bordando essas peças guardadas, e a cada objeto novo que aparecia no vestido, algo se refazia dentro dela, e uma nova força crescia. Quando achou que tinha descarregado tudo naquele vestido, olhou para o seu trabalho e pensou: “Cara…isso é arte!”

E aos poucos a produção artística foi voltando em sua vida, no início de forma inesperada com técnicas que desconhecia, como o bordado, e depois com a redescoberta do desenho e da pintura, que trouxeram de volta aquela sensação tão gostosa de sentir orgulho de si mesma. Um dia, caminhando no parque, Nina encontrou um menino fazendo algumas acrobacias de ginástica artística para um público fascinado. Nos seus belos movimentos, ela viu alguém que estava totalmente focado no presente, fazendo com perfeição e fluidez aquilo que mais amava. Observando sua arte e o impacto que ela causava nas pessoas, ela pensou: “Esse menino é bonito porque está fazendo exatamente o que faz de melhor, e isso qualquer pessoa reconhece. Eu também sou capaz de fazer algo especial, algo que me faz brilhar de um jeito que as pessoas aqui também reconheceriam. Então é isso que tenho que fazer!”

Com o tempo ela começou a mostrar sua arte para as pessoas e vender algumas peças. Ela ficou impressionada como seu trabalho comovia públicos tão diferentes, inclusive aqueles que eram muito diferentes dela. Como ela me disse, a arte é subjetiva: a pessoa sempre irá interpretá-la usando seus próprios sentimentos e vivências. Quando estamos diante de algo belo, sensível, tocante, buscamos lá dentro esses sentimentos, e o que vemos através da obra é o melhor de nós. Por causa disso, acredito que a arte tem o poder de unir, derrubar barreiras e preconceitos. E somente ao mostrar sua obra e impactar as pessoas é que Nina sentiu sua arte completando todo o ciclo.

Quando perguntei a ela: “O que você queria ser antes de crescer?”, ela lembrou de uma historinha que fez quando era muito pequena, de um homem que queria ser “pintor de quadros” e um dia se tornou “pintor de quadros”. Nessa simplificação infantil, já existia toda essência de algo que ela levou anos para descobrir: ela só quer ser artista. “O resto é parafernalha”.

Por que deixamos as pessoas, o trabalho, a vida, fazer a gente se desviar daquilo que somos apaixonados? Por que é tão difícil perseguir aquilo que realmente amamos? Questionamentos sempre vão existir, é inevitável. Muitas vezes o maior bloqueio para esse caminho somos nós mesmos, que sempre duvidamos da nossa capacidade. A Nina me inspirou a sempre perseguir o que se ama, mesmo que você ainda duvide, que não tenha segurança para fazer disso sua carreira. É isso que vai fazer você se curar, se encontrar, e se surpreender com a própria capacidade de encantar o mundo.

Texto e ilustração: Raquel Jordão

Desenho_Nina

O sonho da Nina: “Me vejo em uma casa em Ubatuba, passando o dia desenhando, bordando e vendo o mar!”

5 comentários sobre “A história da Nina

  1. Lucia Aparecida Travençolo disse:

    Depoimento de mãe que só compreendeu claramente as angústias da filha depois dos 30 anos de idade – eu sou a mãe da Nina. Hoje sinto orgulho do seu trabalho e desejo que ela realize seus sonhos e seja feliz em todos os seus intentos. Luz sempre no seu caminho!!

    Curtido por 2 pessoas

    • raquelmaj disse:

      Que lindo depoimento! Eu sei o quanto o apoio de mãe é importante, pois tive total apoio da minha! Isso nos dá uma força enorme para perseguirmos nossos sonhos! Muito amor para vocês duas!

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