A história da Maithy

Tem 34 anos, é formada em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP, hoje é proprietária da empresa Enquanto Pepe Dorme e mora em Santos-SP.

Maithy sempre foi muito sonhadora. O que você queria ser antes de crescer? Ela se emociona e diz: “Ah… já quis ser tantas coisas!” Astronauta, detetive, modelo, desenhista de animação…. Ela sempre adorou desenhar, mas ao mesmo tempo que escutava dos pais que tinha um dom especial, ouvia também que “sonho não alimenta!” Além disso, era muito romântica, e sempre teve o sonho de se casar e ter filhos.

Vinda de uma família tradicional japonesa, foi incentivada e cobrada a estudar MUITO, passar numa boa faculdade e arrumar um emprego que lhe desse conforto e segurança. Para tentar honrar as expectativas de todos, ela primeiro passou em Geofísica. Logo percebeu que aquilo não tinha nada a ver com ela, e com muito esforço, convenceu os pais a deixarem ela prestar arquitetura. Ela começou o curso já com o peso de ser a segunda escolha: dessa vez ela precisava provar para todos, inclusive ela mesma, que foi a escolha certa.

Era uma carga pesada a se carregar, e era difícil para ela também encontrar significado nas aulas. Maithy passou a faculdade sem despertar grandes paixões pelo curso, e quando pensava no futuro, o sonho de ser arquiteta parecia sem brilho perto do seu sonho de menina, que nunca a abandonou: “Queria uma casa, filhos, cachorro e um quintal.”

Mas quando ela começou a trabalhar como arquiteta, descobriu alegrias que nunca tinha sentido antes: o prazer de realizar algo, crescer como profissional, evoluir como mulher, ser independente. E foi nesse momento, quando ela começou a achar o seu sonho de menina insuficiente para a mulher que havia se tornado, que a vida a pegou de surpresa: Maithy estava grávida.

Seu namorado, também de família muito tradicional, não pensou duas vezes em oficializar aquela família que se formava. Quando Pepe nasceu, ela estava casada e morando em outra cidade, e apesar de estar longe do seu trabalho e amigos e vivendo na casa dos sogros, se via cercada de todo o conforto e segurança que seu filho precisava. Quando terminou a licença-maternidade, decidiu não voltar a trabalhar, pois queria se dedicar somente ao seu filho por pelo menos um ano. Ela estava disposta a ser feliz com a família que havia ganhado, mesmo não sendo exatamente como sempre sonhou. Se dedicou totalmente durante alguns anos, mas sempre parecia que algo faltava, ela nunca sentia sua felicidade completa.

Maithy foi se sentindo angustiada e frustrada por não conseguir encontrar realização na sua nova realidade. Em eventos sociais, fugia das pessoas quando surgia a pergunta: “O que você faz?” Ela tinha vergonha de dizer que ficava em casa cuidando de seu filho. E começou a se odiar por isso. “Como posso ter vergonha de ser uma mãe dedicada? Tenho tanta coisa e não consigo ser feliz…Sou uma ingrata!”

Ela então foi se fechando na sua própria tristeza, sem perceber entrou em depressão, emagreceu muito, deixou de se cuidar. Foi preciso escutar de muita gente, inclusive de sua mãe, que estava “definhando”, estava apagada e sem vida, para então decidir procurar ajuda e fazer alguma coisa. Na terapia, percebeu o quanto estava se sentindo sozinha e isolada, e como ao assumir o papel de mãe e esposa, havia deixado de ser ela mesma. Sentia falta de um espaço só dela, de se comunicar com outras pessoas, de se amar mais.

Maithy decidiu então que precisava voltar a trabalhar. Mas ela estava perdida, e não sabia nem por onde começar! Nas tentativas que fez para voltar ao mercado de trabalho, encontrou resistência e preconceito: nas entrevistas em escritórios, ninguém aceitou o fato dela ter horários rígidos por ser mãe; na sua tentativa de prestar concurso público, foi desincentivada porque seu marido também estava prestando, e “como uma boa esposa, ela deveria ir para onde ele passasse.”

Então ela usou o único tempo que tinha, enquanto seu filho dormia, para criar algo só seu: começou a postar na internet os seus desenhos, que ilustravam suas alegrias e tristezas como mãe, e alguns de seus delicados trabalhos manuais. E assim surgiu, timidamente, o Enquanto Pepe Dorme. No início era só uma válvula de escape, a sua maneira de mostrar para o mundo as suas criações. Mas o número de seguidores foi crescendo, cada vez mais pessoas perguntavam se ela também fazia encomendas, e ela percebeu que aquilo podia ser muito mais: Enquanto Pepe Dorme era uma oportunidade de negócio. Sem conhecimento na área, sem estrutura, sem nenhum apoio da família, ela começou a empreender, criando produtos e atendendo clientes. Ainda que sentisse muito medo e insegurança e não tivesse coragem nem de atrelar seu nome ao negócio, os clientes foram chegando, os seguidores aumentando e ela passou a ser notada.

Conheceu e passou a participar de alguns grupos de mães empreendedoras, que têm como objetivo incentivar e dar suporte para as mães que decidem empreender. Com esse apoio e novas parcerias, Maithy começou e se estruturar melhor, conquistou mais clientes e pôde compartilhar com outras pessoas as suas experiências. Ela ganhou mais autoconfiança, voltou a se cuidar, e finalmente resolveu assinar seu nome no Enquanto Pepe Dorme. A primeira vez que enviou um e-mail da empresa com sua assinatura, se emocionou: “Senti que aquilo era meu”. Durante toda essa jornada de montar seu próprio negócio, ela não se deu conta que estava, na verdade, buscando algo: sua própria identidade. Perdida em algum lugar no meio das fraldas, ela a encontrou fazendo aquilo que sempre foi seu maior dom, criando, sonhando e realizando.

Hoje sua maior felicidade é ver no seu trabalho tanta beleza e cuidado, e depois receber de outras pessoas o reconhecimento daquilo que fez com tanto amor. Seu coração se enche de alegria também quando Pepe se reconhece em seus desenhos, ao sentir que ele também faz parte daquele espaço que é dela.

Encontrar e fortalecer sua identidade é o primeiro passo para construir uma carreira com propósito. No caso da Maithy, ela encontrou sua identidade no seu trabalho, pois colocou nele todo seu talento, criatividade e sentimentos mais profundos. Se ela não tivesse sido mãe, se sua vida não tivesse virado de ponta-cabeça com esse episódio, talvez ela não tivesse encontrado esse caminho. Às vezes, é da nossa dor que surge nossa força, e nosso movimento mais autêntico.

Maithy sempre foi chamada de sonhadora como sendo uma fraqueza, mas hoje ela reconhece isso como força, e tem um pouco mais de liberdade para sonhar. Falando de seus planos, de novos produtos e de crescimento, seu rosto se ilumina, os olhos brilham e a boca abre um sorriso. Ela imagina a Enquanto Pepe Dorme bem mais estruturada, com uma sede física, onde ela se vê criando junto com outras pessoas que trabalham fazendo o sonho possível. Como diz uma frase que ela gosta muito, “Se você não trabalhar pelos seus sonhos, alguém vai te contratar para trabalhar pelos dele.” ¹

NOTA 1: Frase de Ricardo Wallas.

Texto e ilustração: Raquel Jordão

Desenho_Maithy

O sonho da Maithy: “Minha empresa tem uma sede física, passo o dia criando e gerenciando outras pessoas que trabalham fazendo meu sonho possível”.

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