A história da Magda

Tem 66 anos, graduada em Economia com Mestrado em Tecnologia da Inteligência e Design Digital – Aprendizagem e Semiótica Cognitiva pela PUC–SP, é Consultora e proprietária da empresa Magnitud e mora em São Paulo – SP.

Quem conhece a Magda, mesmo que brevemente, não consegue deixar de se contagiar pela sua alegria e bom humor. Com uma energia e disposição infinitas, é difícil imaginar o tamanho dos desafios que já encontrou na sua vida, que está longe de ser um mar de rosas. Nascida na Espanha, veio para o Brasil com 2 anos de idade, com seus pais e irmã. Aos 9 anos perdeu a mãe, e a partir daí, sempre viu no seu pai uma figura forte e presente: viúvo em um país estranho, trabalhava muito para conseguir sustentar a família, mas nunca se queixou de cansaço. Criou os filhos com a educação rígida que acreditava ser a melhor possível, e os ensinou a serem sempre otimistas, a não demonstrarem desânimo nem tristeza. Mesmo no momento da morte de sua mãe, seu pai baniu o luto da sua casa, e Magda nunca pôde chorar aquela perda com sua família.

Desde pequena ela foi obrigada a lidar com suas tristezas de outra maneira, e viveu uma infância introspectiva, onde a falta de amigos foi substituída por leituras extensas e uma fome insaciável por conhecimento. Percebeu muito cedo sua paixão por pesquisa e estudo, e principalmente pelo desafio de explorar algo desconhecido, decifrar, entender e compartilhar novos aprendizados. Quando entrou no colegial, com 15 anos, já foi obrigada a pensar na sua carreira. Naquela época, era possível escolher entre três tipos de formações, inclusive uma mais técnica voltada para o mercado de trabalho. Seu pai disse que ela e sua irmã precisavam começar a trabalhar logo, e então instruiu: “Vão fazer secretariado”. No dia da matrícula, elas se depararam com uma fila enorme só de mulheres para o secretariado e uma fila só de homens para técnico em contabilidade. Olharam para as duas, depois uma para a outra e decidiram: “Vamos fazer técnico em contabilidade”! Logo que se formou, Magda conseguiu seu primeiro emprego em uma empresa de valores tradicionais, onde ela se viu enterrada em uma hierarquia rígida que não a deixava crescer. Poucos meses depois, estava fazendo entrevista em outra empresa. Quando foi questionada por sua falta de experiência, disse com toda segurança do mundo: “Tenho certeza absoluta de que tudo o que tiver para fazer, eu vou dar conta.”

Magda foi contratada, honrou em cada tarefa o que disse na entrevista, pagou sua faculdade e se formou em Economia, e depois de assumir cargos de Supervisora e Gerente, foi convidada a ser assessora do presidente. Durante anos de sua carreira, viu a empresa crescer de 80 para 10.000 funcionários, passou por vários cargos e funções, e conquistou a confiança do presidente com sua dedicação e habilidade em lidar com pessoas e conflitos. No começo dos anos 90, assumiu o papel de reestruturar todas as áreas de Recursos Humanos da empresa e comandar um único departamento centralizado. E claro, teve que fazer a difícil tarefa de decidir quem ficava e quem ia embora, um dos trabalhos mais sofridos que realizou.

Mas Magda nunca fugiu de um problema: ao contrário, considerava todos um desafio, algo estimulante que encarava de frente, tirando de letra desde o machismo que sofreu na empresa aos cargos de alta responsabilidade. Para ela, o desafio mais difícil era conciliar sua carreira (onde trabalhava demais) com sua família: seu marido sempre a cobrava por sua ausência, e a culpa de sentir que tinha pouco tempo com seus dois filhos sempre a perturbou. Mas Magda nunca diminuiu o ritmo de trabalho; afinal, também havia o peso de ser a provedora do lar. Em vez disso, aproveitava ao máximo todos os momentos que passava com os filhos, planejava festas de aniversário com enfeites preparados por ela, levava as crianças para viajar sempre que podia, fazia questão de dar o beijo de boa noite antes de dormir. Mesmo com uma rotina tão corrida, nunca se queixou nem do trabalho, nem dos filhos, pois essas duas coisas sempre foram para ela algo energizante, nunca exaustivo.

Em 1994, um trágico acidente mudou radicalmente o rumo de sua vida: o presidente da empresa onde trabalhava morreu em uma queda de avião, e a perda de alguém que ela tanto admirava foi um grande choque. Os seus herdeiros foram obrigados a assumir a empresa, e muitas mudanças começaram a acontecer. Um dia, totalmente de surpresa, um funcionário chegou para ela e disse: “A senhora está demitida, e tem até o fim do dia para recolher suas coisas e ir embora. Tenho ordens para, a partir de amanhã, não permitir mais sua entrada nessa empresa.” E foi assim, sem nenhuma explicação ou motivo, que acabou sua carreira de 27 anos na empresa que ela ajudou a construir. Nesse momento, seu chão caiu: raiva, tristeza, injustiça e medo se misturaram numa só sensação, e no meio desse pesadelo veio sua maior preocupação: Como iria pagar as contas e sustentar seus filhos? Ela havia se divorciado a poucos anos, e não recebia nenhuma ajuda financeira. Diante de uma situação que parecia sem saída, tomou uma decisão: pegou seu fundo de garantia, chamou seus filhos e foi fazer uma viagem de 40 dias pela Europa. “Minha situação pior não vai ficar. Depois eu penso no que fazer, agora vou relaxar…porque eu mereço!”

Quando voltou, percebeu que não havia lugar no mercado para uma mulher de 40 e poucos anos com a sua experiência. Mas Magda nunca desanimou, nem se desesperou: “Sempre acreditei que tudo que acontece, por pior que seja, tem um motivo, e que de alguma maneira isso vai me beneficiar.” Analisando suas possibilidades, decidiu usar aquilo que possuía de mais valioso, seu conhecimento, para começar uma nova carreira como consultora. Aproximou-se da Associação de Recursos Humanos, organizou grupos e congressos, deu cursos gratuitos e fez vários contatos. Abriu sua própria empresa, se especializou em dar treinamentos corporativos e se apaixonou pelas dinâmicas de grupo cooperativas. Como não podia deixar de ser, foi a fundo no assunto: fez uma pós-graduação e escreveu dois livros sobre jogos cooperativos para empresas e posteriormente fez o seu mestrado sobre criação de jogos. Hoje, sua maior paixão é usar sua habilidade em resolver problemas para criar um jogo, e depois ver o impacto que ele causa nas pessoas ao passarem por experiências inesquecíveis.

Olhando para seu passado, Magda ainda vê muita dor nesses momentos difíceis, mas também reconhece neles as mudanças mais importantes de sua vida. “São esses momentos que me moldaram, que fizeram eu ser quem sou hoje. E por isso eu os abraço, e agradeço por eles terem acontecido.”  Foi terrível para ela ser desligada da empresa daquele jeito; mas pouco tempo depois ela assistiu de longe a empresa cair e entrar em falência, enquanto ela estava construindo uma nova carreira onde se via ainda mais feliz e realizada. Durante a sua vida profissional, Magda passou por várias mudanças: trabalhou no setor financeiro, no administrativo, em Recursos Humanos, se dedicou a uma empresa, começou de novo, montou seu próprio negócio, se especializou em jogos… Mas em cada uma dessas fases ela se dedicou totalmente, colocou energia e paixão ilimitados no seu trabalho, e não importava qual era a tarefa, ela sempre encontrou significado e realização.

Mas de onde vem toda essa energia? Sobre isso, Magda deu um depoimento emocionado: “Às vezes, sem mais nem menos, sou inundada por uma alegria infinita, algo muito forte que me preenche por dentro, e me energiza completamente. Isso acontece desde pequena, geralmente com coisas simples, como ver uma bela flor ou assistir ao pôr-do-sol…” Por isso, Magda se sente abençoada, com um dom que lhe traz uma alegria tão grande que ela precisa compartilhar com o mundo. Para ela, o seu trabalho é a maneira de fazer isso, colocar sua energia que foi lhe dada de presente em algo que transforma o mundo e toca as pessoas. “E é por isso que continuo trabalhando até hoje. E não vou parar nunca!”

Antes da entrevista, Magda confessou não saber o que queria ser antes de crescer. Com a perda prematura da mãe e sua infância mais fechada e mental, ela não teve muitos momentos como sonhadora. Mas se lembrou de quando queria ser arqueóloga, para viajar até lugares distantes e investigar mistérios. Hoje ela tem certeza que não teria paciência para pincelar fósseis durante meses, e a menina introspectiva que não tinha amigos virou uma profissional especializada em pessoas. Mas Magda ainda é movida pelo desafio, uma eterna criança em busca de aventuras, com um poder infantil que muitos acabam perdendo pelo caminho: a capacidade de se deixar encher de energia através das belezas mais simples, numa conexão única com o amor.

Texto e ilustração: Raquel JordãoDesenho_Magda

9 comentários sobre “A história da Magda

  1. Magda Vila disse:

    Obrigada por retratar de forma tão linda e delicada a minha jornada de vida. Fiquei muito feliz e emocionada ao ler teu carinhoso texto e perceber a simbologia da ilustração. Um beijo muito apertado!!!

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    • Raquel M.A.J. disse:

      Magda querida, eu que agradeço por compartilhar sua história de maneira tão aberta! A ilustração é uma homenagem, que você continue espalhando alegria no mundo!

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  2. Ana Paula Peron disse:

    Magda querida… fiquei sem ar…só quem saboreou sua energia bem de pertinho sabe o que é… Tenho muito orgulho de ter compartilhar este mundão contigo e muita gratidão por tudo que aprendi contigo… e saiba, foi muito!! Muito amor.App

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  3. Maria Aparecida A Gomes disse:

    Magda querida, sem palavras…
    Quanta sensibilidade, sabedoria e amor.
    Parabéns pra Raquel que soube relatar com tanta verdade e simplicidade!
    Parabéns pra vc por ser quem é!!!
    Amei !

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    • Raquel M.A.J. disse:

      Obrigada, Maria Aparecida! A alegria com que Magda superou todos os seus desafios foi a maior inspiração que ficou com a sua história! Espie as outras histórias também, tenho certeza que encontrará mais amor e dedicação!

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  4. João Raful disse:

    Pude de longe acompanhar sua trajetória , o relato a descreve mto bem. Sempre me marcou sua energia e prontidão a felicidade. Conheci-a no início dos anos 90 e até hoje guardo sua presença com muito carinho!!

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  5. Cristina Polidoro disse:

    Raquel, não conheço a Magda tão bem como você. Tive a oportunidade de ser apresentada a ela por uma pessoa que considero uma segunda mãe, a Marli. Adoro as duas com a mesma intensidade. São exatamente o que você descreve, transbordam alegria e são totalmente contagiantes…Parabéns pelo seu lindo trabalho sobre uma pessoa realmente linda….

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