A história do René

Engenheiro apaixonado por sistemas, René criou uma startup que hoje é uma das maiores empresas de games do Brasil. A Tapps Games prova que criatividade, diversão, foco e crescimento não só podem andar lado-a-lado como também se complementam e incentivam eficiência e comprometimento.

Desenho_Rene

Tem 33 anos, é formado em Engenharia Elétrica com ênfase em Computação pela POLI-USP, hoje é CEO da empresa Tapps Games e mora em São Paulo.

René ainda tem cara de menino, dirige um carro popular e vai trabalhar a pé. Em um dia normal de trabalho, me recebeu na sua empresa de bermuda, tênis e camiseta. À primeira vista, você não diria que ele é um grande empresário, mas não se engane: há uma grande diferença entre humildade e ambição, e René é a prova disso.

A Tapps tem a cara do dono: sedeada num grande galpão, acomoda toda produção em um único espaço. As salas de reunião ficam no primeiro piso do mezanino, e os temas de cada uma são inspirados em jogos da empresa: com chão de grama sintética e até uma privada no canto de uma delas (conhece o jogo Toillet Time?), é provavelmente o ambiente corporativo mais lúdico que já conheci! Nos pisos acima, algumas salas administrativas, e no último piso, atrás do departamento de RH, fica a sala dele: pequena, simples, com o mesmo mobiliário e ausência de decoração do restante da empresa.

Se o René foge do estereótipo do empresário, a Tapps também engana na aparência: com mais de 100 funcionários, é uma das maiores empresas de games do Brasil, com produção abundante e crescimento contínuo. Seu espaço traduz muito do seu espírito e o que ela valoriza: a ausência de divisórias e padronização do mobiliário incentivam a livre circulação de ideias, independente de hierarquias; a decoração divertida mostra que é possível trabalhar sério com senso de humor, e a grande sala de convivência, com vídeo game e mesa de sinuca, valoriza a descontração e interação entre todos da equipe. Nos fundos da empresa, fica uma área externa com churrasqueira e um vestiário para aqueles que vão de bicicleta, completando o cenário de inclusão e integração: as festas e happy-hours são frequentes, o que ajuda a manter o ambiente amigável e divertido.

Tive a oportunidade de acompanhar um pouco a trajetória do René, desde a faculdade até hoje. A única vez que ele trabalhou como funcionário foi antes de se formar, ainda como estagiário. “Logo vi que aquilo não era para mim. Sempre queria mover mais, me envolver mais do que meu cargo permitia.” Vindo de uma família onde todos são empreendedores, logo começou a pensar e estruturar modelos de negócios: se não tinha certeza, ele testava; se dava errado, ele mudava ou começava de novo. E independente de dar certo, SEMPRE achava que dava para ser melhor.

E assim surgiu a Tapps, há sete anos atrás, uma empresa que desenvolvia aplicativos para mobile com diferentes fins. Depois de testar muitos produtos, ele e seu sócio decidiram focar nos jogos para celular: era um produto que possibilitava muitas experimentações, não dependia de mercado interno, contava com um grande número de usuários e não precisava de conquistar nem administrar clientes diretos.

Confesso que, quando via aquela meia-dúzia de garotos recém-formados, trabalhando de bermuda e chinelo no próprio apartamento do René, desenvolvendo “joguinhos de celular”, jamais enxergava uma grande possibilidade de negócio. Alguns anos depois, vendo a Tapps Games com 130 funcionários, dois escritórios e uma produção estimada de 150 jogos ainda para esse ano, ficou clara a minha falta de visão.

Em cada etapa de desenvolvimento da empresa, René encontrou um desafio diferente, e o prazer de superá-los sempre foi sua maior motivação. Toda fase teve seu aprendizado, e ele curtiu cada momento que essa jornada lhe proporcionou. O primeiro desafio foi sobreviver: não é fácil passar por esse começo onde se trabalha muito e se ganha nada. Perguntei para ele se não ficava ansioso.

– Claro que ficava!

– E o que você fazia?

– Trabalhava mais ainda, para ocupar a cabeça!

O segundo desafio foi expandir, contratar e formar equipes, testar modelos que permitiam o crescimento sempre almejado. Hoje seu foco está em nutrir tudo aquilo que foi construído, estruturar e implementar mudanças, cuidar do desenvolvimento de toda a equipe, estabelecer objetivos e traçar metas para as infinitas possibilidades que ele ainda vê pela frente.

Quando era criança, René adorava criar e montar coisas: apaixonado por mecanismos e sistemas, sempre soube que queria ser Engenheiro. Como empresário, sua paixão ainda é criar, montar e estruturar: ele só trocou os mecanismos, circuitos e sistemas por negócios, ideias e talentos.

René está na empresa todos os dias, e apesar do grande número de pessoas e de nem sempre ser possível, se esforça para se manter próximo e acessível por todos: ele valoriza muito a proatividade e engajamento da equipe, e cuida para que o ambiente da empresa favoreça a liberdade e criatividade sem nunca perder o foco. A média de idade dos funcionários é abaixo de 25 anos, e a empresa tem um baixíssimo turn over, o que é raro de se conseguir com uma equipe tão jovem.

Isso me fez questionar as muitas críticas que já ouvi sobre a nova geração, dizendo que os jovens têm dificuldade de se comprometer e assumir responsabilidades. Ao que parece, eles apenas valorizam muito mais que as gerações passadas o trabalho desafiador e criativo: se eles estão numa empresa onde se sentem estimulados e livres para criar, eles se comprometem de corpo e alma.

Assim como a Tapps, muitas empresas surgiram baseadas em negócios que nem sequer existiam há alguns anos atrás. Algumas já deixaram de ser startups e se tornaram empresas modelo, com novas maneiras de se organizar, produzir, liderar. Mais do que uma possibilidade inovadora, acredito que esse é o futuro de todas as empresas, onde uma nova visão sobre criatividade, liberdade e comprometimento mudará completamente a relação das pessoas com o seu trabalho.

Texto e ilustração: Raquel Jordão

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