Brincar e criar… É só começar!

Às vezes eu sinto que a vida me obrigou a me distanciar das brincadeiras de criança para “virar adulta”… E que agora, na minha vida adulta, me esforço para resgatar aquilo que me faz brilhar os olhos nessas brincadeiras de criança!

Desenho_Casa

Brincando de Arquiteta e desenhando a casa que gostaria de morar.

Quando comecei a questionar minha carreira, logo me deparei com a pergunta: Mas afinal, o que eu gosto de fazer? Para minha surpresa (e desespero), senti que perdi a resposta em algum lugar pelo caminho… Então refaço aqui os meus passos, tentando encontrar a paixão perdida, e também procurando entender por que ela se perdeu.

NA PRÉ-ESCOLA…

O brincar é a atividade mais importante e de mais valor, aquilo que constrói a base de nossos talentos e potenciais. Com total liberdade de escolha, você começa a identificar suas preferências e paixões, colocando aquilo que gosta de fazer acima daquilo que sabe fazer (afinal, não é muito que você sabe). Sem medos e julgamentos, é incentivado e testar os seus limites, pensando sempre em um passo de cada vez. Nessa fase, o processo de aprendizagem é muito mais importante do que a conquista do resultado. Você se lembra quando aprendeu a andar de bicicleta? Imagina se naquela época você só pensasse no medo de cair, em parecer bobo na frente dos outros ou se quisesse dominar a bicicleta no primeiro dia? Provavelmente não conseguiria nem começar…

NA ESCOLA…

A liberdade de escolha diminui muito: tudo já é entregue mastigado e formatado, as decisões do que aprender e de que jeito já chegam prontas a você. Numa época em que a formação do caráter e a interação social ganham importância, somos quase nada incentivados a questionar, a saber defender e escutar um ponto de vista, a trabalhar em equipe e ter empatia pelos outros. Somos sim ensinados a ter disciplina, a obedecer e ficar em silêncio, e o seu desempenho é medido pela sua capacidade de assimilar e decorar conteúdos prontos, sem se preocupar se aquilo tem alguma coisa a ver com você.

Nos distanciamos muito daquilo que gostamos, e “aprendemos” que a vida é cheia de coisas chatas, e que temos obrigação de absorvê-las mesmo assim. Ironicamente, no fim dessa fase, somos colocados a fazer uma escolha que definirá para sempre o rumo de nossas vidas: Qual será a minha profissão? Depois de anos sendo treinados a não escolher, a priorizar aquilo que é importante e não aquilo que se gosta, como podemos ser capazes de fazer uma escolha consciente?

NA FACULDADE…

Vejo a Faculdade como uma grande aceleradora de talentos: se você já sabe desenhar, vai desenhar maravilhosamente bem. Se já sabe projetar, vai desenvolver projetos incríveis. Se já sabe composição, geometria, história e tem repertório, com certeza vai ter um excelente desempenho. Mas se você entrou na Faculdade de Arquitetura sem a menor noção do que faz um arquiteto, bem…

Em um ambiente onde um trabalho bem feito era amplamente discutido e potencializado, e um trabalho precário era ou ignorado ou severamente criticado, a lição que ficou foi a seguinte: corra atrás, porque você sempre vai se sentir atrás; invista naquilo que você é bom, esqueça aquilo que você não faz tão bem; se você não sabe exatamente o que quer, não espere encontrar compaixão, incentivo ou qualquer tipo de orientação.

NO TRABALHO…

A minha primeira impressão ao entrar no mercado de trabalho foi bem parecida com o choque de ir da escola para a universidade: a sensação de que tudo o que aprendi antes ou era inútil ou não era considerado importante, e tudo aquilo que era valorizado, eu não sabia.

Em um ambiente onde você é pouco elogiado e muito cobrado, você almeja se desenvolver cada vez mais, com a promessa de sucesso quando chegar ao topo. Para alguns é uma grande promoção, para outros é a aposentadoria. Mas para muito poucos o sucesso se encontra no trabalho do dia-a-dia, e não num futuro que pode nunca chegar.

O que fazer quando você se vê no meio desse processo, onde tudo parece ter dado certo, sua carreira se desenvolve cada vez mais e seu salário aumenta mas… você não está feliz?

Acho que muitos passam ou passarão por isso, e cada um tem seu percurso e seu jeito de buscar a felicidade. Terapia, coaching, leituras específicas… Mergulhando no tema de felicidade no trabalho, descobri um mundo que para mim era novidade, e me deparei com alguns conceitos que hoje considero os pilares daquilo que busco: realizar meu propósito, atingir meu potencial e exercer minha criatividade. Mas para ir além do clichê e entender a fundo o que significam, cito três verdades que aprendi sobre esses conceitos:

Propósito não é algo que você alcança, e sim aquilo que você vive e realiza diariamente.

Potencial não tem nada a ver com o que você faz bem, e sim com o que você ama fazer.

Criatividade não é um dom que poucos possuem ou desenvolvem, e sim um poder inato ao ser humano.

É no ato de brincar que realizamos e encontramos essas três verdades, sendo criança ou adulto. Quando brincamos baixamos nossos julgamentos, nossos preconceitos e medos do futuro. É provavelmente durante a brincadeira que alguém pode ter mais certeza daquilo que poderia ser e deveria fazer.

Seria muito bom que as próximas gerações não demorassem tanto quanto eu para perceber que aquilo que realmente importa estava lá o tempo todo: você só deixou, por muito tempo, de olhar para isso. Gostaria que não disséssemos para nossas crianças: Legal que você gosta de brincar disso, mas agora é hora de crescer e encontrar uma profissão de verdade.

Não deveríamos nunca deixar de brincar, inclusive (e principalmente) no trabalho.

Texto e ilustração: Raquel Jordão

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